A educação emerge como a principal demanda dos eleitores residentes em favelas do Rio de Janeiro para as próximas eleições, superando a agenda de segurança pública, que aparece em segundo plano. Segundo dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, 2,1 milhões de eleitores fluminenses residem em favelas, áreas que historicamente enfrentam desafios de urbanização e acesso a serviços essenciais, evidenciando a disparidade na presença estatal nesses territórios.
Na cidade do Rio, 1,3 milhão de pessoas vivem em 813 favelas, muitas com infraestrutura precária de saneamento e coleta de lixo. A professora de serviço social da UFRJ, Eblin Farage, destaca que, apesar das dificuldades, essas áreas não são homogêneas e possuem demandas específicas.
Moradores de comunidades cariocas, como Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, do Complexo do Alemão, priorizam melhorias em mobilidade, educação, cultura e saúde. Letícia, que votará pela primeira vez, busca candidatos com compromisso nas pautas de direitos humanos e dispostos a ouvir as necessidades locais.
“Muitas vezes, [governantes] chegam com respostas prontas, sem saber o que queremos, como achamos melhor, então, precisa [ser alguém] disposto a ouvir”, ressaltou Letícia, que também integra o Conselho Estadual da Criança e do Adolescente.
A jovem ressalta a importância de propostas para mobilidade urbana, citando a falta de linhas de ônibus que conectem favelas a outras regiões da cidade, dificultando o acesso a lazer e oportunidades de emprego. Programas como o Jovem Aprendiz, segundo ela, não cobrem os custos de transporte e alimentação para jovens que precisam se deslocar longas distâncias.
Trabalho e Oportunidades
A carência de oportunidades profissionais é uma preocupação para Isabelle Rodrigues Trindade, 26 anos, jornalista e moradora da Rocinha. Ela busca vagas na área, mas atua como agente cultural, evidenciando a dificuldade de inserção no mercado de trabalho para moradores de favelas.
A jornalista também aponta o fim da escala 6x1 como uma prioridade para trabalhadores, visando conciliar melhor a rotina profissional com a vida pessoal e estudos, especialmente para quem reside em áreas periféricas com longos deslocamentos.
Educação e Inclusão
A oferta de cursos técnicos e profissionalizantes, além de projetos esportivos, é fundamental para João*, jovem de 26 anos que vive de bicos e é pai de duas filhas. Ele critica a interrupção de iniciativas educacionais antes de sua conclusão e clama por melhorias no ensino e oportunidades para crianças com deficiência.
Sara Sant'anna, 24 anos, estudante de história e moradora da Favela do Rodo, cobra a instalação de centros culturais e polos de educação superior em sua região, criticando a distância das faculdades públicas e a falta de preparo das creches para atender crianças com necessidades especiais.
Enfrentamento ao Racismo e Saúde
O combate ao racismo e a melhoria na saúde são pautas urgentes para moradores de favelas, onde a população negra é majoritária. Hugo Oliveira, pesquisador e fundador da organização Galeria Providência, no Morro da Providência, destaca que o racismo se manifesta em barreiras no acesso à saúde e a oportunidades.
Oliveira aponta que o racismo ambiental, as abordagens policiais violentas contra jovens negros e a dificuldade de acesso a moradias seguras são temas frequentemente abordados de forma superficial nas campanhas eleitorais, mas que impactam diretamente a qualidade de vida.
“Esses assuntos vêm sendo colocados de forma superficial nas campanhas”, analisou o gestor. “Mas são vitais, mexem com toda a estrutura, se eu moro em um espaço saudável, isso é um fator de saúde física, emocional e até espiritual”, avaliou.
Ele defende a eleição de lideranças locais comprometidas com os territórios e a articulação entre saberes produzidos nas favelas e o Poder Público.
Segurança Pública e Violência
A segurança pública, embora secundária, é uma preocupação latente, marcada pela violência policial e pelo controle do crime organizado. Bruno Rafael Castilho Alves, 46 anos, morador da Cidade de Deus, critica discursos de candidatos que exaltam o confronto em vez de propor políticas públicas eficazes para a juventude.
“A população demanda combate de forma inteligente, sem ceifar a vida de ninguém”, acrescentou Sara, da Favela do Rodo. Ela lamenta que muitas propostas eleitorais se concentrem no aumento do policiamento e do encarceramento, ignorando relatos de abuso policial.
Organizações e movimentos sociais no Rio de Janeiro buscam, via Supremo Tribunal Federal (STF), maior planejamento e menor impacto das operações policiais em favelas. A professora Eblin Farage observa que a falta de políticas de segurança pública bem-sucedidas no Rio leva moradores a priorizarem outras agendas.
“Não há, na história do Rio de Janeiro, uma política de segurança pública bem-sucedida, que seja referência para essas pessoas”, avaliou. “Para eles [moradores], a segurança são as operações, o caveirão, a violência armada e isso não interessa, não os protege.”
Farage sugere que, devido a falhas históricas no cumprimento de promessas, eleitores de favelas tendem a se relacionar mais com o Legislativo. No entanto, alerta para o risco de clientelismo por parte de ONGs ligadas a políticos, que podem fragmentar a mobilização por direitos e promover agendas conservadoras.
*Nome fictício a pedido do entrevistado.