A fragmentação de dados estratégicos e a falta de integração entre os serviços de atendimento têm sido apontadas por especialistas como barreiras críticas na prevenção de feminicídios em todo o país. Ameaças, agressões e o descumprimento de medidas protetivas costumam anteceder os crimes fatais, mas a divisão das informações entre diferentes órgãos muitas vezes resulta em oportunidades perdidas pelo Estado.
Durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a promotora Silvia Chakian, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), destacou que as instituições registram apenas partes isoladas do problema. Essa dinâmica impede que o poder público compreenda a real trajetória de violência enfrentada pelas vítimas.
“A fragmentação institucional, em que cada instituição registra apenas parte do fenômeno, faz com que o Estado tenha uma visão de fragmentos, não da trajetória de violência”, afirmou a promotora durante o evento.
O delegado Julio Guebert, da Academia de Polícia Civil de São Paulo, reforçou que a superação desse cenário depende de uma atuação em rede. Para ele, delegacias, ministérios públicos, defensorias e unidades de saúde precisam operar de forma conectada e centralizada.
Omissão do Estado e subnotificação
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que 72,9% dos municípios com menos de 100 mil habitantes não possuem serviços especializados de atendimento à mulher. Essa escassez de estrutura territorial aprofunda a vulnerabilidade das vítimas em regiões distantes dos grandes centros.
Por sua vez, a promotora Juliana Tocunduva apontou que a subnotificação e as barreiras de acesso à Justiça dificultam o socorro precoce. Embora o número de medidas protetivas concedidas tenha alcançado marcas expressivas, o monitoramento e a fiscalização do cumprimento dessas ordens judiciais ainda apresentam falhas estruturais significativas.